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sábado, 16 de junho de 2012

Cinderela Man




Não vi o filme quando saíu, nem sei bem porquê, mas hoje passou na televisão e fiquei rendida.
Várias coisas mexeram dentro de mim. Sobretudo a admiração por todos aqueles que lutam sem parar, com garra e convicção pela sobrevivência com dignidade.

Inevitávelmente pensei no meu avô materno e percebi porque não o conheci neste mundo.
Alentejano, fugiu de casa aos 12 anos, fez-se à vida como empregado numa mercearia a fazer entregas ao domicílio. Mais tarde, aos 17 anos foi como voluntário para o exército (cavalaria) e simultaneamente aprendeu o ofício de marcenaria/carpintaria. Quando da implantação da república, insurgiu-se, foi preso e acabou a história como militar.
Com as voltas da vida e depois de se render aos encantos da minha avó 12 anos mais nova que ele (um amor de estórias de encantar), foi um marido e pai dedicado de 7 filhos, que teve de ver irem viver com  familiares mais abastados, para que não passassem fome e, porque apesar de tudo, era pior vê-los a trabalhar no campo de sol a sol com 7 ou 9 anos. A sardinha para 6 não é um mito. A sopa era feita com água e ervas do campo (cardos, saramagos, parecidos com grelos).

Talvez por isso tenha partido tão cedo (58 anos) vencido pelos desgostos  (a saudade mata devagarinho) e cansaço. Não lhe foi concedido tempo para ser plenemente feliz que as adversidades eram muitas.
Nunca foi esquecido, nem lembrado levianamente. A minha avó, que muitos anos depois sofreu uma trombose e perdeu a fala e a memória, quando conseguiu recuperar algumas faculdades, falava dele com se tudo tivesse sido ontem, com muito amor, brilho nos olhos e lágrimas de saudade.
Os filhos falam dele como sendo o grande exemplo a seguir e o grande amor das suas vidas.
A minha mãe conta, que quando ele faleceu a coroa de flores apanhadas no campo, foi feita por ela e pela minha madrinha. E que enquanto teciam, choravam em silêncio.

Não era boxeur, era marceneiro/carpinteiro o meu avô. Mas lutou como um guerreiro.

O projecto de reconstrucção da igreja de Alcoentre é dele. Estava a escavar a abóboda quando partiu.

3 comentários:

Eolo disse...

Estamos com sentimentos parecidos.

Luísa Lopes disse...

Percebi, quando logo a seguir vi o teu post.

Coisas de Feltro disse...

Só o facto de te lembrares dele significa que foi grande. A vida é que era muito rude naqueles tempo, mas nada foi em vão.
Bjs