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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Não te demores






Foi a mais nova das meninas, na condição de mimada por todos. Punham-lhe laços, faziam-lhe vestidos e foi poupada ao trabalho no campo. No entanto o encantamento quebrou-se cedo.

Vida difícil a dela.Viveu-a toda na mesma casa muito humilde. Tinha amor para dar, isso sim e cabia sempre um colchão no chão para as visitas e uma mesa cheia para quem aparecesse. Havia nela uma eterna meninice de quem parece viver num universo paralelo, uma ingenuidade estranha em que tudo se aceita, porque assim tem de ser. Sem reclamar. Talvez isso a tenha salvo nos momentos amargos.

Herdou uma avó que não era dela e de quem cuidou até ao fim.
Teve um filho que era dela (muito dela) de quem cuidou até ao fim.
Teve um marido que talvez nunca tenha sido dela, que cuidou também até ao fim. Até o gato a deixou na mais terrível solidão. Arrancaram-lhe os afectos a sangue frio.
Como se não bastasse tem uma doença grave, que aos 80 anos e nestas circunstâncias só pode ser ironia, maldade pura. Mais sofrimento se avizinha.
E não tem quem cuide dela.

Talvez seja chegada a hora de o filho a vir buscar.

domingo, 21 de outubro de 2012

Se chorasse...

 
 
 
 

 
"Os momentos que separavam a noite da madrugada revelavam-se longos e sombrios. Às vezes pensava que se pudesse chorar me sentiria mais aliviado. Mas não sabia por que chorar. Por quem chorar. Era demasiado egoísta para chorar pelos outros, demasiado velho para chorar por mim."
 
 
Haruki Murakami
 
A Sul da Fronteira
A Oeste do Sol
 
 
 
 

domingo, 7 de outubro de 2012

Não digas nada



 
 

NÃO DIGAS NADA!

Não digas nada!
...

Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.

(23-8-1934)
Fernando Pessoa
 
 

Premonições

 
 



Tento ser aquela de quem eu e os outros gostamos, positiva e alegre mas não é nada fácil. Dentro de mim acontecem  coisas que me são familiares e que por isso mesmo me tiram o sono o sossego e a paz. A minha fé vem sempre acompanhada de cepticismo .Uns antidepressivos ajudam, grita-me a vozinha lá do fundo, mas eu não quero estar estar anestesiada. Não já, nem agora. O meu psiquiatra tem uma explicação com a qual eu concordo, mas que não sei contrariar. Tenho uma personalidade controladora (nada que não soubesse mas fiquei aconchegada/envergonhada quando ele me disse sem rodeios) logo sou adversa às mudanças, a tudo aquilo que não consigo prever e dominar e é como se me tirassem o chão e caísse vertiginosamente num abismo.
Não percebo nada da vida. A lucidez do positivismo, da esperança e da força que penso ter, abandonam-me quando mais preciso.

Acordei muitas vezes a gritar por ela. A noite tem este poder premonitório sobre mim, os meus terrores aparecem a minha consciência, intuição ou lá o que for, mantem-me alerta como um cão à porta à espera do dono. Sinto o fim a aproximar-se. Falta-lhe a vista, a audição, a alegria e a vontade de viver. Agarra-se aos fantasmas e acredito que lhes pede que a venham buscar. Perder a dignidade, liberdade de movimentos a independência é uma humilhação para ela. Perdeu quase tudo o que a fez feliz. Viver muito pode ser cruel. Vai desaparecendo tudo à nossa volta, ficamos para contar as histórias que ninguém quer ouvir, sentimos a degradação sem que nada possamos fazer quando estamos lúcidos, conscientes de nós. É o caso. Mas não podia ser de outra maneira, ou podia? Assaltam-me as dúvidas, sinto uma quase culpa.

Herdei dela esse control excessivo das coisas e dos outros o que me faz defender-me da própria sombra e dela sobretudo. Sufocou-me sempre, por amor, segundo ela. Mas o que eu sinto é que em todas as acções está um ataque premeditado. Poucas foram e são as manifestações de afecto que eu tenha sentido como genuínas ou então não sei ler nas entrelinhas. Sempre foi tudo muito forçado, porque assim tem de ser, porque é assim que se faz. Porque a vida é dura e não há espaço para mariquices. A espontaneidade de um beijo ou de um abraço, nunca existiram. Porquê? Porquê?
Mas existe a censura de quem, sem nunca saber dar, exige receber.

Não sei se saberei ficar sózinha de mãe. Enerva-me este egoísmo. Exaspera-me esta impotência.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Soube-me a pouco, mas foi tanto...






Setembro é mágico. Os dias notam-se mais pequenos, com o céu mais perto e uma luz especial. O calor ausenta-se do corpo para voltar à alma, num acto intimista.
Operam-se mudanças em mim, para melhor e, a juntar a tudo isto, tive mais um presente do Universo ao poder revisitar lugares, sítios, pessoas. Cada partilha, abraço, alegria tomaram as proporções desejadas. Inesquecíveis. Quando estou quase a cair na descrença, desencanto, desespero até, lembro-me de todos estes momentos que me fazem bem, e me dizem que tudo vale a pena. Que não vale desistir. Encontrarei o meu caminho, tenho a certeza.
E só me resta agradecer. Muito e tudo.