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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Não te demores






Foi a mais nova das meninas, na condição de mimada por todos. Punham-lhe laços, faziam-lhe vestidos e foi poupada ao trabalho no campo. No entanto o encantamento quebrou-se cedo.

Vida difícil a dela.Viveu-a toda na mesma casa muito humilde. Tinha amor para dar, isso sim e cabia sempre um colchão no chão para as visitas e uma mesa cheia para quem aparecesse. Havia nela uma eterna meninice de quem parece viver num universo paralelo, uma ingenuidade estranha em que tudo se aceita, porque assim tem de ser. Sem reclamar. Talvez isso a tenha salvo nos momentos amargos.

Herdou uma avó que não era dela e de quem cuidou até ao fim.
Teve um filho que era dela (muito dela) de quem cuidou até ao fim.
Teve um marido que talvez nunca tenha sido dela, que cuidou também até ao fim. Até o gato a deixou na mais terrível solidão. Arrancaram-lhe os afectos a sangue frio.
Como se não bastasse tem uma doença grave, que aos 80 anos e nestas circunstâncias só pode ser ironia, maldade pura. Mais sofrimento se avizinha.
E não tem quem cuide dela.

Talvez seja chegada a hora de o filho a vir buscar.

2 comentários:

Coisas de Feltro disse...

Acho que entendi tudo! Lamento. Esta coisa a que chamam vida pode ser tão dura, caraças!

Luísa Lopes disse...

Custa manter a fé.