Número total de visualizações de página

quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril 40 anos






Onde estava no dia 25 de Abril de 1974? Em Moçambique.
Não percebo nada de política, nem sei muito dos factos, não éramos politizados (tinha 10 anos)
Lembro-me de ver os meus pais a ouvir rádio muito baixinho de ouvido colado e de repente abraçaram-se, saltaram, deram beijos e vivas. Não percebi nada, mas deixei-me contagiar pela euforia. Estava feliz porque meses depois íamos à Metrópole passar 21 dias de férias numa viagem programada. Matar as saudades, que não havia cá Skipe, nem telefone. Só umas cartas e uns telegramas que enchiam alma com fotos dentro. 
- Nasceu o menino...os anos da avó...o casamento, a primeira comunhão... olha que lindos... e lágrimas.
As férias, essas foram dolorosas, eternas, definitivas. Não voltaria a ver a minha casa, os meus cães, os meus amigos, a minha praia, os meus livros, os meus brinquedos o meu mundo.
Tinha 10 anos.
Ia perdendo o meu pai nessa altura. Ele ficou lá, agarrado ao sonho de ser feliz. De forma honesta. A fugir de uma vida pobre e medíocre e do desgosto da perda da mãe que o levou para outras paragens. Aguentou tudo o que conseguiu. Acreditou até ao fim. Quando não conseguiu mais, regressou. Mas pela metade, meio morto, sem brilho nos olhos. Nunca mais seria o mesmo.
Valeu-nos a família. Os mais humildes que nos acolheram, naquela casa à beira mar. E a força, a garra dos meus pais.
Sim, sou uma retornada. Fui achincalhada, maltratada, renegada no meu país. Bulling, diz-se agora.
Tinha 10 anos.


 

Poderia estar dias aqui a descrever as voltas que a vida deu.
Sei o que era viver antes desta data, pelos relatos dos mais velhos e revolta-me os fígados. Fui muito feliz, é verdade, mas com a consciência de uma criança.
Sei o que é viver depois e agradeço poder estar aqui a falar disto e do que me apetece, porque posso, porque sim. Porque sou livre.
Sei que os povos devem ser livres, independentes e respeitados. que as guerras são farsas, jogos sujos de interesses, com consequências a todos os níveis.
Sei que a minha filha nasceu num mundo melhor.

Mas tenho uma sensação estranha de perda. Comparo o 25 de Abril de 1974  com Jesus no catolicismo. Sabemos que existiu e temos fé. Ou não.  E não parece mas só passaram 40 anos.

A forma como os homens conduziram os destinos não foi feliz. Subverteram tudo. Estamos prestes a perder o que conquistámos. O que temos, os valores....
Olho para a minha mãe e sinto que não valeu a pena que trabalhasse no campo aos 6 anos de idade de sol a sol. Que tivesse de ir servir aos 9 para poder não passar fome e lhe chamassem sopeira. Que não pudesse falar com mais de uma pessoa na rua, que não havia cá ajuntamentos.

Não conheço soluções, não sei fazer política, não percebo nada disto.
Mesmo assim aquele dia foi feliz, único e deu-nos tudo. Mas o Homem não sabe que fazer com a liberdade.








Emocionada digo: 25 de Abril sempre!!!








1 comentário:

Coisas de Feltro disse...

O dia mais importante da história de Portugal do século XX. Que afinal não tornou o país no que se sonhou na altura.