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domingo, 21 de outubro de 2012

Se chorasse...

 
 
 
 

 
"Os momentos que separavam a noite da madrugada revelavam-se longos e sombrios. Às vezes pensava que se pudesse chorar me sentiria mais aliviado. Mas não sabia por que chorar. Por quem chorar. Era demasiado egoísta para chorar pelos outros, demasiado velho para chorar por mim."
 
 
Haruki Murakami
 
A Sul da Fronteira
A Oeste do Sol
 
 
 
 

domingo, 7 de outubro de 2012

Não digas nada



 
 

NÃO DIGAS NADA!

Não digas nada!
...

Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.

(23-8-1934)
Fernando Pessoa
 
 

Premonições

 
 



Tento ser aquela de quem eu e os outros gostamos, positiva e alegre mas não é nada fácil. Dentro de mim acontecem  coisas que me são familiares e que por isso mesmo me tiram o sono o sossego e a paz. A minha fé vem sempre acompanhada de cepticismo .Uns antidepressivos ajudam, grita-me a vozinha lá do fundo, mas eu não quero estar estar anestesiada. Não já, nem agora. O meu psiquiatra tem uma explicação com a qual eu concordo, mas que não sei contrariar. Tenho uma personalidade controladora (nada que não soubesse mas fiquei aconchegada/envergonhada quando ele me disse sem rodeios) logo sou adversa às mudanças, a tudo aquilo que não consigo prever e dominar e é como se me tirassem o chão e caísse vertiginosamente num abismo.
Não percebo nada da vida. A lucidez do positivismo, da esperança e da força que penso ter, abandonam-me quando mais preciso.

Acordei muitas vezes a gritar por ela. A noite tem este poder premonitório sobre mim, os meus terrores aparecem a minha consciência, intuição ou lá o que for, mantem-me alerta como um cão à porta à espera do dono. Sinto o fim a aproximar-se. Falta-lhe a vista, a audição, a alegria e a vontade de viver. Agarra-se aos fantasmas e acredito que lhes pede que a venham buscar. Perder a dignidade, liberdade de movimentos a independência é uma humilhação para ela. Perdeu quase tudo o que a fez feliz. Viver muito pode ser cruel. Vai desaparecendo tudo à nossa volta, ficamos para contar as histórias que ninguém quer ouvir, sentimos a degradação sem que nada possamos fazer quando estamos lúcidos, conscientes de nós. É o caso. Mas não podia ser de outra maneira, ou podia? Assaltam-me as dúvidas, sinto uma quase culpa.

Herdei dela esse control excessivo das coisas e dos outros o que me faz defender-me da própria sombra e dela sobretudo. Sufocou-me sempre, por amor, segundo ela. Mas o que eu sinto é que em todas as acções está um ataque premeditado. Poucas foram e são as manifestações de afecto que eu tenha sentido como genuínas ou então não sei ler nas entrelinhas. Sempre foi tudo muito forçado, porque assim tem de ser, porque é assim que se faz. Porque a vida é dura e não há espaço para mariquices. A espontaneidade de um beijo ou de um abraço, nunca existiram. Porquê? Porquê?
Mas existe a censura de quem, sem nunca saber dar, exige receber.

Não sei se saberei ficar sózinha de mãe. Enerva-me este egoísmo. Exaspera-me esta impotência.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Soube-me a pouco, mas foi tanto...






Setembro é mágico. Os dias notam-se mais pequenos, com o céu mais perto e uma luz especial. O calor ausenta-se do corpo para voltar à alma, num acto intimista.
Operam-se mudanças em mim, para melhor e, a juntar a tudo isto, tive mais um presente do Universo ao poder revisitar lugares, sítios, pessoas. Cada partilha, abraço, alegria tomaram as proporções desejadas. Inesquecíveis. Quando estou quase a cair na descrença, desencanto, desespero até, lembro-me de todos estes momentos que me fazem bem, e me dizem que tudo vale a pena. Que não vale desistir. Encontrarei o meu caminho, tenho a certeza.
E só me resta agradecer. Muito e tudo.


sábado, 15 de setembro de 2012

Não temos quem nos defenda


Tive uma noite povoada por sonhos maus e estou febril (uma gripe talvez). Fiquei por casa prostrada, sem forças, sem vontade para nada. Fui vendo o facebook, povoado de bandeiras pintadas de preto, coisa que não me agrada, dói-me até.
Com as lágrimas fáceis a saltarem-me dos olhos porque estou mais vulnerável que habitualmente, tenho estado a acompanhar as notícias no meu país via TV. Não via manifestações assim há muitos anos..
E choro de vergonha, de orgulho, de impotência de falta de fé no futuro. Sabemos o que não queremos, mas não chega. Já não há quem nos defenda. Já não há ideais com verdadeiro fundamento que levem ao caminho de mudanças urgentes, com verdadeiras soluções. Não vejo soluções. A partir daqui só vejo caos.
Já passei por épocas muito difíceis ao longo da minha vida, mas havia esperança. Agora parece não haver. Parece.


domingo, 9 de setembro de 2012

Ciclo da vida, o encantamento





Fim de tarde encantado.
Hoje ví-vos assim, juntinhas a preparar a partida. Cai-me a lágrima do costume.
Voltem depressa, vou ter saudades e já me vejo em Março de cabeça no ar à procura de um sinal. de renovação, com a certeza de que o ciclo da vida é perfeito.





Vi um arco íris, senti os primeiros pingos de chuva, o cheiro da terra. Vesti um casaco.
Quis ir para lá de onde veio, ou para lá, para onde vai.


domingo, 2 de setembro de 2012

Impotência esta...


 

Geralmente não fico indiferente aos pedintes. Sinto-me envergonhada, humilhada sem saber que fazer. Não sei se é empatia, respeito, medo de um dia estar naquele lugar. Acabo sempre por dar e nem precisam de me contar uma história. Às vezes apetece-me sentar, conversar, perceber, solucionar.
Em casa, raramente abro a porta a não ser que tenha alguma coisa combinada. Não abro mesmo. E a minha mãe também não.
Há dias, aconteceu ao meu marido. Estava na garagem vi-o entrar em casa a correr para vir buscar moedas. Era um rapaz a vender meias da fábrica que o tinha despedido e o resultado foi ficarmos com meias até sermos grandes.
Ontem estava a fazer o jantar, tocou a campaínha a Coelha foi, abriu e chamou-me.
Era um senhor a rondar os 35 anos e foi muito claro. Qualquer coisa. Podia ser desde roupa de bébé, roupa de cama, comida, até artigos de higiene. Lá foi dizendo que estava desempregado e eu que tenho sempre coisas para dizer, só lhe pedi que esperasse e voltei com leite e arroz que tinha ali à mão (mais uma falta de ar e estômago apertado)
Agradeceu educadamente e foi-se embora. Fiquei a remoer na roupa que tinha deixado no contentor adequado há meia dúzia de dias. O meu marido engordou e não lhe serviam os pijamas, os polos, enfim. Fiquei muito calada durante muito tempo, fui buscar outros exemplos, outras situações.
Sinto-me impotente, não gosto do mundo.
Não consigo deixar de pensar no assunto. Não consigo!